FED muda política monetária com relação a inflação. O que acontece agora?

Hoje durante o simpósio virtual de Jackson Hole, o presidente do banco central dos Estados Unidos da América, Jerome Powell, fez uma grande mudança em sua política monetária relacionada à postura do banco central diante da inflação.

O mercado de bonds, moedas, o ouro e os índices de ações balançaram forte.

O sell-off no mercado de bonds culmina em yields mais altos (oferta e demanda, quanto mais compras de títulos, menor o rendimento. Quanto maior, yields caem).

O contexto geral que explica essa forte atividade é a inflação. Vamos falar aqui neste artigo sobre várias abordagens, analisando a decisão de hoje do Fed.

Decisão
As discussões de desafixar a meta de inflação em 2% vinham desde 2019 e hoje se tornaram realidade. O FED agora passa a trabalhar com uma média de inflação ao redor de 2%. Além disso, Powell comunicou ao mercado que as taxas de juros baixas continuarão por bastante tempo e que uma revisão de estratégia de política monetária irá acontecer ‘aproximadamente’ a cada cinco anos. Powell chamou as mudanças de “atualização robusta”.

Após essas declarações (mesmo que já “avisada com antecedência” pelo Fed) os mercados deram uma grande balançada, puxados principalmente pelas vendas dos bonds.

Mas antes de qualquer outra coisa, precisamos entender os motivos de tais mudanças e como elas irão impactar na inflação.

Ao permitir que a inflação ultrapasse o limite de 2% (e que trabalhe acima disso), o Fed manda um importante recado: que irá aceitar uma inflação mais alta (e consequentemente uma possível desvalorização de sua moeda) em troca da criação de mais vagas de emprego, mantendo a taxa de juros nos patamares atuais pelos próximos anos:

“O Fed estará altamente focado na promoção de um mercado de trabalho forte”, disse Powell. “Alguns setores da economia que são mais sensíveis às paralizações pelo coronavírus, foram mais afetados. Porém, se conseguirmos manter a taxa de transmissão do vírus baixa, podemos recuperar estes setores em poucos anos”, concluiu.

O anúncio vem em um momento em que os EUA apresentam:
– Taxa de Desemprego acima de 2 dígitos (10,20%):

– e PIB no menor patamar histórico (desde quando começou a ser registrado), em -31,7% (no 2° tri/20):

Analisando o passado
Em 2017 e 2018, os argumentos de uma política monetária conduzida primeiramente pela ex-presidente do Fed, Janet Yellen, e em seguida por Powell, foram a inflação acima da meta de 2% e o forte mercado de trabalho, com taxas de desemprego em mínimas históricas. Esta “combinação” foi a responsável pelas “rate hikes”, que tirou a taxa de juros – após um longo período de 7 anos – estagnada entre o intervalo de 0% e 0,50%, para 2,5% ao ano.

Taxa de inflação EUA

Taxa de desemprego EUA

Então agora, quando o Fed diz para o mercado de que a meta de 2% não é o pior problema e que na verdade, o foco agora é a recuperação dos empregos, temos alguns problemas para levar em consideração.

Segundo Joseph Carson, ex-economista-chefe da AllianceBernstein, esta nova política de inflação “média” do Federal Reserve é um grande erro. O compromisso hoje em dia é entre inflação e estabilidade financeira. Comprar mais inflação acabará por criar, se é que ainda não o fez, desequilíbrios financeiros que desencadearão um colapso econômico. Um paralelo a essas medidas são as políticas monetárias equivocadas dos anos 1970. Naquela época, os legisladores descobriram que comprar mais empregos com um pouco mais de inflação não funcionava.

O argumento de Powell para a mudança de política é que a inflação ao consumidor tem estado consistentemente abaixo de sua meta de 2%. Segundo Carson, leituras de inflação baixas e sustentadas podem, com o tempo, diminuir as expectativas de inflação, o que pode criar “inflação e expectativas de inflação cada vez mais baixas”. A evidência atual não apoia esses argumentos.

Os ramos estatísticos do Governo Federal publicam duas medidas de inflação de preços ao consumidor. O Bureau of Labor Statistics (BLS) publica o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) e o Bureau of Economic Analysis (BEA) publica as Despesas de Consumo Pessoal (PCE).

Nos últimos 4 anos, o CPI central esteve acima da meta de 2% do Fed. O único ano dos últimos 5 em que o CPI principal ficou abaixo de 2% foi 2017, quando atingiu 1,8%. Esse pequeno déficit não é estatisticamente significativo e certamente não justifica uma mudança fundamental na política.

Além disso, o argumento de Powell de que “a baixa inflação divulgada está minando as expectativas de inflação do consumidor” não é sustentado pelos fatos. As expectativas de inflação ao consumidor da pesquisa de sentimento da Universidade de Michigan  (UMich Consumer Sentiment) mostram que as expectativas de inflação das pessoas têm consistentemente superado a inflação relatada e a meta de 2%.

Nas últimas duas décadas, a única vez que as expectativas de inflação ao consumidor caíram abaixo de 2% foi durante o 11 de setembro e a Grande Crise Financeira de 2008. E cada queda nas expectativas durou pouco tempo. As expectativas de inflação do consumidor estão atualmente em 3%.

Além disso, atualmente a inflação real medida pelo CPI está abaixo de 2% porque essas medidas ignoram os preços de imóveis, os custos dos empregadores com saúde, educação e bolhas do mercado de ações.

O Federal Reserve tem três principais encargos: emprego máximo, estabilidade de preços e estabilidade financeira. A estabilidade financeira é frequentemente esquecida ou ignorada. As duas últimas recessões foram desencadeadas não por uma inflação muito alta ou muito baixa, mas por preços de ativos reais e financeiros muito altos. As atuais macroavaliações de ativos agora excedem os limites mais elevados das duas últimas bolhas de ativos.

Mudanças na política monetária costumam ter consequências indesejadas. Tentar “comprar” mais inflação é um erro, segundo Carson. “É um erro de política porque a inflação real está acima da meta. Mas o maior problema é que a nova política vai desencadear mais especulação e riscos nas finanças em um momento em que os valores dos ativos já estão em níveis sangrentos.”

“As políticas equivocadas dos anos 1970 acabaram em um colapso econômico. Será que desta vez será diferente? Eu tenho minhas dúvidas. Isso porque a exuberância nas finanças ou na economia cria desequilíbrios que se corrigem naturalmente. A grande diferença hoje em relação à década de 1970 é que os Estados Unidos não têm defesas políticas – com taxas oficiais em zero e déficits orçamentários na casa dos trilhões – para amortecer a queda.”

Concluindo, não há nenhum benefício econômico em aumentar a inflação, mas há os vencedores e perdedores. Os vencedores são os que têm primeiro acesso ao dinheiro, nomeadamente os bancos e os já ricos.

O Fed reclama da desigualdade de renda e riqueza, mas eles são a principal fonte.


Estudo de deflação BIS
O BIS fez um estudo histórico e descobriu que a deflação de preços de rotina não era problema algum.

“A deflação pode até impulsionar a produção. Preços mais baixos aumentam a renda real e a riqueza. E também podem tornar os produtos de exportação mais competitivos”, afirma o estudo.

É a deflação da bolha de ativos que é prejudicial. Quando as bolhas de ativos estouram, o resultado é a deflação da dívida.

As tentativas seriamente equivocadas dos bancos centrais de derrotar a deflação rotineira dos preços ao consumidor são na verdade o que alimenta o acúmulo destrutivo de dívidas improdutivas e bolhas de ativos que eventualmente entram em colapso.

“O problema não é a deflação, são as tentativas equivocadas do Fed de evitá-la.”

Bonds e o dólar

Talvez tenhamos visto hoje um dos desequilíbrios financeiros ao qual Carson mencionou, no mercado de bonds (no qual os movimentos dos yields consecutivamente acabam puxando o dólar).

A inflação tem um impacto muito negativo sobre os ativos de renda fixa quando resulta em taxas de juros mais altas. Os bancos centrais, normalmente aumentam juros quando a inflação começa a ultrapassar o limite desejado. Como os pagamentos de juros dos ativos de renda fixa existentes se tornam menos competitivos em relação aos novos instrumentos de renda fixa de taxas mais altas (novas emissões), os preços dos bonds normalmente caem. Em outras palavras, existe uma relação inversa entre taxas de juros e preços de ativos de renda fixa. A inflação alta também pode prejudicar os retornos de estratégias que dependem de pagamentos fixos.

Agora, como explicar um selloff nesses bonds hoje (e o aumento dos yields) quando o Fed diz que irá manter as taxas inalteradas pelos próximos anos?

Essa é a divergência. Por diversas vezes vimos as previsões do Fed falharem e mudanças nas taxas de juros acontecerem por motivos de “combate à inflação”.

Quando o Fed traz para o jogo uma nova estratégia de atuação, comprando propositalmente mais inflação com política acomodatícia por longos períodos, temos essa desconfiança do mercado, de que grandes níveis de inflação estão vindo no futuro. Com o mercado de ações renovando máximas históricas dia após dia (principalmente resultante das políticas de estímulos), porquê manter o capital em bonds cujos yields se depreciarão cada vez mais com a inflação?

Esse cenário força os investidores a remanejarem sua exposição ao dólar, que no curto prazo se beneficia de yields mais altos e um diferencial em queda, mas no médio/longo prazo, pode vir a ter uma grande desvalorização conforme a inflação comece a bater à porta.

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